segunda-feira, 21 de abril de 2008

A CRIANÇA E O MOVIMENTO

A CRIANÇA E O MOVIMENTO
Eustáquia S. de Souza
Tarcísio Mauro Vago

Criança é sinônimo de movimento, pois através dele vive e manifesta suas emoções, experimenta sentimentos de alegria ou tristeza, de encontro ou rejeição. É pelo movimento que a criança interage com o meio ambiente para alcançar seus objetivos ou satisfazer suas necessidades. É por meio dele que ela se relaciona com o outro, descobre quem é e o que é capaz de fazer. É, ainda, através do movimento que a criança expressa sua criatividade e soluciona seus problemas motores.
O movimento é também básico para o desenvolvimento cognitivo da criança. Embora Jean Piaget, em 1952, tenha reconhecido o estágio sensório-motor como extremamente importante para o desenvolvimento do ser humano, até hoje não se dado a merecida atenção ao movimento global da criança. Atualmente, inúmeros estudiosos da Educação defendem a idéia de que as experiências motoras que se iniciam na infância são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, visto que os movimentos são os principais meios que a criança utiliza para explorar, relacionar e controlar o seu ambiente. O movimento é capaz de desenvolver as percepções que, organizaram em estruturas cognitivas, são as bases de toda a aprendizagem simbólica.
Sintetizando, diríamos que o movimento tem grande influencia no desenvolvimento psicológico, biológico, social, cultural e evolutivo da criança. Diante do valor do movimento torna-se fundamental verificar como essa questão tem sido tratada na pré-escola e nas séries iniciais do 1º Grau. A verdade é que o corpo e seus movimentos têm sido esquecidos na grande maioria das escolas. As normas, as metodologias adotadas pelos professores e os próprios conteúdos das disciplinas numa visão dicotômica do ser humano vem desprezando o corporal e valorizando o intelectual. Os movimentos voluntários e a participação espontânea da criança são substituídos por movimentos rígidos, padronizados, com objetivos definidos pela escola e ate mesmo pela distribuição espacial dos alunos. Na grande maioria dos prédios escolares não se encontra espaços livres para brincar e experimentar movimentos. As salas são superlotadas e a criança é obrigada a passar várias horas em posições quase estáticas.
Para completar esse quadro, também fora da escola os espaços para a criança se movimentar, brincar estão cada vez mais escassos. Os estímulos ambientais para os movimentos são mínimos e muitas vezes são restritos a televisão, o que leva a imobilidade e passividade.
A Educação Física, única disciplina escolar cujo objeto de estudo e aplicação é o movimento, não tem tido espaço físico e, principalmente espaço político-pedagógico nas escolas. Normalmente a escola não conta com professores especializados, sob a alegação de que as aulas devem ser ministradas pela regente de classe. Por outro lado, a regente não adquiriu conhecimento suficiente em seu curso de formação para tratar as questões do movimento. E quem sofre as conseqüências é a criança.
È inegável que a Educação Física escolar, desde que adequada, tem uma enorme contribuição ao desenvolvimento global da criança. Ela é, sem dúvida, a alternativa mais enriquecedora de experiências de movimentos. Entretanto, para que ela cumpra seu papel é necessário, principalmente, que seja institucionalizada como uma disciplina com objetivos específicos de educar o movimento e através dele educar a criança como um ser total.
Para que a educação Física alcance seus objetivos, é necessário que se constitua num espaço onde a criança e o professor possam produzir criar, experimentar e aprender movimentos. Ela deve oferecer uma multiplicidade de movimentos que promovam diferentes aprendizagens motoras, contribuam para o desenvolvimento harmonioso da criança, favorecendo e valorizando o seu potencial lúdico e criativo.A seleção dos objetivos, atividades, métodos e critérios de avaliação da Educação Física prescinde de conhecimentos das características do desenvolvimento motor da criança.
Os estudos nos mostram que a criança de dois a sete anos, aproximadamente, vive a fase dos movimentos fundamentais e é capaz de aprimorar os movimentos chamados rudimentares tais como andar, correr, saltar, subir, lançar e dependurar. Esses movimentos são essenciais para a criança e não precisam ser ensinados. Porem é preciso estimular a criança a executá-los. Assim, as aulas de Educação Física para crianças dessa faixa etária precisam fornecer condições físicas e emocionais para que ela vivencie esses movimentos de maneira espontânea e criativa.
A criança na faixa etária de sete a doze anos vive a fase da combinação de movimentos fundamentais. Existe uma infinidade de combinações de movimentos, como por exemplo, correr e pular, pegar e alcançar que precisam ser vivenciadas pela criança. E é importante lembrar que, se nessa idade ela não adquiriu essas habilidades, certamente apresentará, ao longo de sua vida, problemas motores que terão implicações de ordem emocional, social e intelectual.
A partir dos doze anos, a criança entra na fase dos movimentos culturalmente determinados. Os movimentos aprendidos nessa fase – gestos esportivos, utilitários – estão na dependência de uma boa vivencia dos movimentos característicos das fases anteriores.É importante que o professor conheça o desenvolvimento motor da criança para não desprezar ou saltar etapas, o que poderá ser extremamente prejudicial ao desenvolvimento infantil.Além disso, é necessário que o professor atue como facilitador e motivador da participação de todas as crianças, harmonizando as relações entre elas. É preciso garantir a todos a oportunidade de criar novas experiências de movimentos.
É fundamental que a Educação Física não se justifique simplesmente por sua obrigatoriedade legal. Ela precisa se justificar pelo direito e pela necessidade de educação do movimento, pelo movimento.Eustáquia Salvadora de Souza é professora de Pratica de Ensino de Educação Física, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais.Tarcísio Mauro Vago é professor de Educação Física do Centro Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais.

Um comentário:

Ana disse...

Olá professor, gostaria de saber o que poderia trabalhar com as crianças de 3 anos, que movimentos elas são capazes de realizar?