Como verdadeiros enxadristas do futebol, os técnicos das seleções que disputam o Mundial têm diante de si um grande tabuleiro onde devem arrumar as suas peças de acordo com uma tática que só eles dominam. As peças que eles organizam segundo a sua própria vontade são conhecidas no futebol como "jogadores polivalentes."
Alguns técnicos, como Diego Maradona, não fazem nada de extraordinário, preferindo apenas avançar ou recuar um jogador, como se fosse um simples peão. Mas essa estratégia pode prejudicar o grupo. O argentino Jonás Gutiérrez teve de se adaptar à sua nova função de lateral direito, mas está habituado a jogar na posição de meia-direita no Newcastle.

"Eu não jogaria em uma posição se não estivesse à vontade, pois isso poderia prejudicar a equipe", explicou o jogador após a vitória contra a Nigéria por 1 a 0. "Eu me sinto bem nessa função e, afinal, acho que a equipe se saiu bem na defesa. É importante conversar com os outros defensores em campo para evitar surpresas desagradáveis. É um dos segredos."
Lateral avançado ou meia recuado?
Os brasileiros Michel Bastos e Daniel Alves estão na mesma situação. Bastos está recuado na seleção de Dunga em relação à posição mais ofensiva que ocupa no Lyon. Já com o jogador do Barcelona ocorre o inverso. Apesar de às vezes entrar como meia-direita com a camisa do Brasil, como ocorreu no jogo contra a Coreia do Norte, quando substituiu Elano, Daniel Alves atua apenas como lateral no clube da Catalunha, embora muitas vezes não hesite em se desdobrar para dar apoio ao ataque.
A vantagem desses jogadores é o fato de serem muito versáteis, com visão de jogo, disposição ofensiva e capacidade defensiva. "No Brasil, joguei como lateral direito durante quase cinco anos", explicou Bastos em entrevista recente ao FIFA.com. "Mas, pouco depois que cheguei a Lille, o técnico começou a me utilizar na meia esquerda, às vezes até na ponta esquerda. Na verdade, é muito comum isso acontecer com os laterais brasileiros que jogam na Europa."
Algumas outras peças do futebol têm uma área maior a percorrer no campo e precisam de muito rigor tático para não prejudicarem a sua seleção. É por essa razão que o alemão Thomas Müller e o grego Giorgios Samaras foram deslocados das pontas, mesmo sem abandonar as suas características ofensivas.
No Bayern de Munique, Müller joga dando apoio ao ataque, enquanto na seleção atua como meia, posição em que marcou um gol contra a Austrália na primeira partida do Grupo D. "Acho que consigo dar mais vigor ao time quando o ritmo começa a diminuir, e posso ajudar a equipe graças ao meu estilo direto", analisa o jogador de 20 anos. Já Samaras atua como atacante de referência no Celtic, mas joga aberto pela esquerda na seleção grega.
Na defesa e no ataque
Na Inglaterra, o técnico Fabio Capello parece não ter conseguido encontrar a posição ideal para Steven Gerrard. Sem ter ainda descoberto um modo de conviver no meio-campo com Frank Lampard, o meia-armador do Liverpool joga às vezes como meia ofensivo e outras vezes aberto pela esquerda, em uma posição de que ele não necessariamente gosta.

"O técnico me colocou ali com a ordem estrita de jogar com o Wayne Rooney", descreve o novo capitão da seleção inglesa. "Ele quer que eu leve perigo ao meio-campo, não apenas na esquerda. Acho que ele compreende que não sou um jogador de flanco." Gerrard teve a oportunidade de atuar pelo lado esquerdo em parceria com o artilheiro do Manchester United, mas a tentativa não funcionou no empate em 0 a 0 com a Argélia.
Porém, a jogada de mestre veio de Kim Jong Hun, o estrategista da Coreia do Norte, no caso de Kim Myong-Won. Embora o jogador tenha ficado quase sempre no banco durante as eliminatórias, ele foi utilizado como atacante no final de pelo menos três partidas. O problema é que, na África do Sul 2010, Myong-Won está inscrito como terceiro goleiro!
No futebol moderno, os técnicos exigem cada vez mais que os seus peões possam jogar nas posições de rei, bispo, torre, cavalo e até rainha. Tudo isso para descobrir uma jogada perfeita que coloque o adversário em xeque-mate.